terça-feira, abril 12, 2011

trabalhismos

(encontram-se num banco)

Oi.

Oi.

Já almoçou?

Sim, já almocei.

Comida estranha essa de hoje, não é?

Ô.

Parece que eles aproveitaram a carne que sobrou do churrasco para fazer o picadinho.

Evita desperdício.

Mas a carne sexta já parecia sobra da carne do churrasco de quinta. Hoje já é segunda.

Eles devem congelar. Congelar evita que estrague.

É mesmo? Tenho que adotar isso em casa. Hum, você não acha que aquelas mulheres do refeitório tem umas caras estranhas.

Estranhas do tipo que vão ao banheiro e não lavam as mãos?

É.

Que tiram caca do nariz enquanto estão cozinhando?

Isso mesmo.

Não acho não. Elas parecem bem asseadas.

Muito trabalho hoje?

O de sempre.

Chefe pegando no pé, creio?

Como todos os dias. Se importa?

O que?

Estou no MSN com o técnico do sistema, resolvendo alguns probleminhas.

Na hora do almoço? Poxa porque não resolve depois?

Não gosto de perder tempo.

Mas o técnico está sentado ali na entrada, tentando conversar com a colega dele. Não acha sacanagem você ficar alugando ele enquanto ele flerta com a colega?

Ok. Você venceu. Eu desligo.

Menos mal. Assim eu posso fazer a mesma coisa.

O que?

Conversar. Recebeu aquele e-mail sobre as similaridades entre o gerente e o Gollum do Senhor dos Anéis?

Não.

E sobre quantos chefes como o Alberto precisa para trocar uma lâmpada?

Não. E não quero saber.

Ah, mas esse é muito engraçado...

Eu. Não. Quero. Saber.

Nossa, mal humoradinha a senhora. Aconteceu alguma coisa?

Sim. Aconteceu que eu detesto perder tempo à toa. Vou subir para minha sala.

Mas faltam vinte e cinco minutos ainda para o fim do almoço!

Qual o problema? Eu prefiro gastar minha mente com uma coisa mais produtiva que ficar ouvindo fofoca e abobrinha!

Você está querendo insinuar que eu sou improdutivo?

Não estou insinuando nada. Estou constatando um fato!

Só porque eu não sou uma workaholic descontrolada que gosta de babar ovo em cima do chefe, que fica fazendo hora extra até no feriado, enquanto os seres humanos de verdade dormem e transam, não significa que eu seja IMPRODUTIVO!

Isso nós vamos ver!

Isso você vai ver sozinha se quiser... eu vou continuar coçando até o fim do almoço. E tem mais uma coisa! Eu vou continuar coçando, porque eu já terminei aquilo eu tinha para fazer! Megera!

(outro dia)

Oi.

Olá.

Desculpe.

Não.

Megera.

- MAIS UMA PRODUÇÃO DO CLUB DO TOCANDO-1-FODA-SE -

Teatro de Antonin Artaud

 

Ao me deparar com a folha de papel em branco, resoluta em por em rasura as primeiras palavras que explicitarão as ideias e ideais de Antonin Artaud acerca de interpretação do ator, divago por lentos minutos, e nada concluo para começar. Não que Artaud fosse vago. Alucinado e por vezes inteligível, mas não vago. Como a linguagem que encena, a interpretação que poeta, Artaud amarra sua arte minuciosamente; como no teatro da crueldade, o gesto não é vão, é carregado de simbologia, mas nenhuma ação vem caiada de imagens conhecidas. É a quebra do comum, do acessível.

Como diria o próprio Artaud em "O Pesa Nervos", o dificil é encontrar de fato o seu lugar e restabelecer comunicação consigo mesmo. (...) As pessoas que saem do vago para tentar precisar seja o que for que se passa em seu pensamento, são porcos. Eis-me então definida por Artaud. Precisamente começando por esses porcos, podemos analisar o contexto cênico do teatro da crueldade, imaginando a encenação de um abate.

Em cena bonecos gigantes, luzes que mudam rapidamente, gritos, movimentações inesperadas e contraditórias, objetos de cores contrastantes, notas agudas que modulam para estridentes. O porco, ou aquele que será abatido, é uma representação mágica em seu figurino, e que não caminha em direção alguma. Mas essa nenhuma direção é desenhada, de forma a exprimir a tensão da morte, o desejo de rasgar o coração de seu algoz, o desespero em se ver livre da sua condição: tudo isso retratado através de movimentos cifrados, palavras jogadas, que não condizem com o que é conhecido. Quando o desespero aumenta, o movimento reduz sua velocidade, as vozes se encolhem, mascaras diferentes são postas. Não há cenário. Há personagens-signos que refletem o matadouro.

O teatro da crueldade é o mais conhecido legado de Artaud acerca das artes cênicas. Nele a base é a crueldade, tentativamente buscando a interação metafísica entre platéia e ator, os dois sendo parte da ação-ritual encenada. Interpretar texto é depreciado e visto como teatro comercial (e ocidental) por Artaud: em seu lugar se sobressairia o gestual simbólico, a partitura corporal baseada no delírio, no sonho, o conjunto cifrado do espetáculo. Como se no abate a força mobilizadora não fossem as palavras ditas pelo suíno, sabido de sua sentença de morte, mas o gemido da gigante faca que penetrará sua garganta, uma faca já suja, que tilinta ao redor de todos preconizando a morte.

Para Artaud, o teatro é o lugar privilegiado de uma germinação de formas que refazem o ato criador, formas capazes de dirigir ou derivar forças. Como na peste, que toma as entranhas esquecidas do corpo, e o leva ao gesto mais extremado, a exteriorização de um fundo de crueldade latente, o teatro também deve, para Artaud, encontrar a forma dessa exteriorização. O teatro, como a peste (...). Desenreda conflitos, libera forças, desencadeia possibilidades, e se essas possibilidades são negras a culpa não é da peste ou do teatro, é da vida.

O ator no teatro artaudiano é alquímico, na busca pela essência do movimento que reproduza toda a complexidade da realidade sem ser naturalista, nem realista. Como no oriente, em que os atores passam a vida tentando criar a perfeição da movimentação de seu personagem, o ator idealizado por Artaud deve compreender seu personagem como um hieróglifo, com movimentos capazes de expressar toda uma gama de significados, em ponto de fazer a platéia perceber as imagens e se incomodar delas. E como o porco esperando ser abatido, necessitar gemer e grunhir em antecipação.

Bibliografia:

ARTAUD, Antonin. O Pesa-Nervos. Trad. Joaquim Afonso. Lisboa: Hiena Editora, 1991.

ARTAUD, Antonin. O Teatro e seu duplo. Trad. Teixeira Coelho. 3ªed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

VIRMAUX, Alain. Artaud e o teatro. Trad. Carlos Eugênio Marcondes Moura. São Paulo: Perspectiva, 2009.

sábado, fevereiro 26, 2011

Movimento sensacional de consumismo impulsivo

É com desespero que saio por essa porta: estou sufocado do lado de cá. Sabe aqueles desejos adolescentes de uma maturidade psicodélica, possibilidades infinitas, copos de gim com gelo? Nada. Nada de gim, tudo gelado. Digo, participo correntemente de frozens: um dia estagnado na frente da tela do computador mastigando planilhas, logo após estagnado na frente da tela da TV mastigando calorias, estagnado na cama pensando na estagnação. É tão frutífero que crio raízes e me torno planta.

Sem avisar, depois de engolir o jantar, arremesso meu corpo para fora, vou olhar o mundo, finalmente decido. Aqui fora é frio e alheio, ó imensa novidade. O mundo mudou dois grãos desde que a bebida secou do armário, isso faz 15 anos. De repente vejo. Moderno, inventivo e inovador. Adjetivos que, ao invés de explicitar sobre o que fui, ou que um dia esperei ser, falam sobre uma nova marca de refrigerador que comprei.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Poço

Meu espaço diminui o poço

Não me abraço, estico os braços

Corro em círculos

E pulo

Salto

Arquejo

Estico os braços

Deixo toda sobra pelo chão

Raspo os cabelos

Penduro nas pedras

Vou planejando e montando

Prendendo as lágrimas

Ganhando tamanho

E meu espaço diminui o poço

Falta pouco

Para sumir

quinta-feira, outubro 28, 2010

Sem referência

Uma sobrinha de uma amiga, numa conversa entre ela, eu e a tia, num desses sábados em que encontrar os amigos para um chope na praia parece uma ideia fabulosa, mas não é, comentou, ao ver correndo na calçada um homem alto, forte, gostoso e de sunga, como gostaria de ser dona de um espécime daqueles. Assim: Porra, caralho, se foder, como eu queria um desses. Tão entediado quanto estava, aproveitei o fortuito comentário para fincar as patas na garota e sua extrema superficialidade. Desse jeito: Aposto que nem sabe soletrar “halterofilismo” e tem pau pequeno.

A garota, encarnada, virou seu chope e saiu correndo, escangalhada e de havaianas, atrás do bofe.

Volta quase uma hora depois, com ele caminhando ao seu lado, ainda de sunga. Ele senta ao meu lado, se apresenta para minha amiga e eu (Laérces, credo), e engata numa conversa entediante sobre política monetária. Ok, admito, ele devia saber soletrar qualquer palavra difícil, inclusive “soporífero”, que é o que era sua conversa, e, para sorte da pentelha sorridente, devia ter pelo menos 18 cm.

Mas então, qual é a do estereótipo?

Eu podia jurar que alguns dias atrás, qualquer pessoa vestida de preto, com maquiagem preta e cara de maldito, era um gótico ou heavy-metal adorador do demônio ou do Iron Maiden, tanto faz. Agora, não só as vezes me deparo com esse visual cobrindo um ser nerd, fã inato de anime, que trabalha com programação visual, mora sozinho, tem uma namorada gostosa, e só sabe do Iron Maiden a música do Guitar Hero, como acontece de encontrar conhecidos, virgens, com anel de castidade e conta no x-vídeos, desfilando o mesmo visual.

Em resumo, mastigaram e fizeram um escarramento comunitário das referências. Nada é o que parece, quando é, não parece ser, quando parece não ser, pode ser que seja, e pode ser que seja sem parecer, ou não é, nem parece, e faz parte de algo que ninguém conhece, que foi criado ontem, no meio de um almoço de domingo, onde o tio mala resolveu não comparecer para assistir Glee, e sua avó lhe deu uma grana para você gastar no que quiser (inclusive pornografia, ela diz), e você pensa, porra, finalmente vou comprar aquele espremedor de frutas que ainda está em promoção, então, iluminado pela fantástica luz do carro novo que seu pai comprou pra ele, mesmo podendo comprar um fuleirinho pra você, pra te ajudar, nasce uma ideia inovadora como nunca, que é o que é, sem precisar parecer, sem ser, e descobre hoje na internet que um cara na Guiana Francesa teve a mesma ideia, só que em francês; muito mais foda.

As evangélicas não só usam saia comprida e cabelo Mortícia Adams;

Os emos não só escutam My Chemical Romance, eles amam Radiohead e Franz Ferdinand como se todos fossem a mesma coisa; (e são ué, música!)

Seu vizinho turrão, que implica com o lixeiro, gosta de arte contemporânea, e sempre que volta da Bienal parece mais magro;

E aquele carinha inteligente, sexy, e de pau avantajado, não só ficou com a sobrinha da sua amiga, como a pediu em casamento seis meses depois. Mas ela trocou ele por aquele Nerd, que pinta as unhas de preto e tem cabelo comprido.

Não é como se pudesse dizer que as coisas estão piorando, né, Tiririca?