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sábado, junho 09, 2012

Ideias (do tempo do orkut, validado para o do facebook, sem escalas)

Você pode ter uma ideia estúpida;

Contá-la, sem aviso, interrompendo a conversa;

Perceber o olhar vazio que segue o silêncio após sua fala;

Sentir-se excluído (muito menos do que realmente está) e sofrer com isso;

Deixar os olhos serem inundados pelas lágrimas;

Correr para longe gritando esgoelado “é a melhor ideia que já tive” (o que deve ser absoluta verdade);

Tropeçar na saída, de bico, quedando em escalas enquanto tenta se segurar nas pessoas que se afastam;

Lamuriar-se, em casa, sob os lençóis que já deveriam ter sido lavados, que não deveria ter dito nada;

Julgar, após, que nem deveria ter tido a ideia;

Nunca mais esquecê-la, e, sem querer, terminar seus dias em prol de executá-la.

Você sabe que uma ideia, mesmo estúpida, tornada mais estúpida pelas circunstâncias, pode mudar o mundo;

Mas vai descobrir o quanto ela mudará você.

 

Jac desconhece o sentido que S.M.R.S. tentou imprimir neste texto, e só por isso já o odeia.

terça-feira, abril 12, 2011

trabalhismos

(encontram-se num banco)

Oi.

Oi.

Já almoçou?

Sim, já almocei.

Comida estranha essa de hoje, não é?

Ô.

Parece que eles aproveitaram a carne que sobrou do churrasco para fazer o picadinho.

Evita desperdício.

Mas a carne sexta já parecia sobra da carne do churrasco de quinta. Hoje já é segunda.

Eles devem congelar. Congelar evita que estrague.

É mesmo? Tenho que adotar isso em casa. Hum, você não acha que aquelas mulheres do refeitório tem umas caras estranhas.

Estranhas do tipo que vão ao banheiro e não lavam as mãos?

É.

Que tiram caca do nariz enquanto estão cozinhando?

Isso mesmo.

Não acho não. Elas parecem bem asseadas.

Muito trabalho hoje?

O de sempre.

Chefe pegando no pé, creio?

Como todos os dias. Se importa?

O que?

Estou no MSN com o técnico do sistema, resolvendo alguns probleminhas.

Na hora do almoço? Poxa porque não resolve depois?

Não gosto de perder tempo.

Mas o técnico está sentado ali na entrada, tentando conversar com a colega dele. Não acha sacanagem você ficar alugando ele enquanto ele flerta com a colega?

Ok. Você venceu. Eu desligo.

Menos mal. Assim eu posso fazer a mesma coisa.

O que?

Conversar. Recebeu aquele e-mail sobre as similaridades entre o gerente e o Gollum do Senhor dos Anéis?

Não.

E sobre quantos chefes como o Alberto precisa para trocar uma lâmpada?

Não. E não quero saber.

Ah, mas esse é muito engraçado...

Eu. Não. Quero. Saber.

Nossa, mal humoradinha a senhora. Aconteceu alguma coisa?

Sim. Aconteceu que eu detesto perder tempo à toa. Vou subir para minha sala.

Mas faltam vinte e cinco minutos ainda para o fim do almoço!

Qual o problema? Eu prefiro gastar minha mente com uma coisa mais produtiva que ficar ouvindo fofoca e abobrinha!

Você está querendo insinuar que eu sou improdutivo?

Não estou insinuando nada. Estou constatando um fato!

Só porque eu não sou uma workaholic descontrolada que gosta de babar ovo em cima do chefe, que fica fazendo hora extra até no feriado, enquanto os seres humanos de verdade dormem e transam, não significa que eu seja IMPRODUTIVO!

Isso nós vamos ver!

Isso você vai ver sozinha se quiser... eu vou continuar coçando até o fim do almoço. E tem mais uma coisa! Eu vou continuar coçando, porque eu já terminei aquilo eu tinha para fazer! Megera!

(outro dia)

Oi.

Olá.

Desculpe.

Não.

Megera.

- MAIS UMA PRODUÇÃO DO CLUB DO TOCANDO-1-FODA-SE -

quarta-feira, junho 16, 2010

Amanda

Amanda, quando tinha senso de humor, era cáustico, daquele tipo que usa de ironia até para avisar que acabou o sabonete. Falta uma coisa no banheiro que tenho certeza que fará você querer que eu prepare a salada, diria ela, certa ocasião de um jantar informal em casa de Priscilinha. Além da adaga que fazia vez de língua em sua boca ferina, Amanda era dona de um corpo de arrasar quarteirão: mulheres invejavam sua falta de celulite e pele perfeita, homens desejavam suas curvas e seus sedosos cabelos. O problema é que a boca era indissociável dela.

Então, em uma segunda gorda, quando todos ainda se lamuriavam do findo feriadão, Amanda fez uma daquelas aparições dela, quadris no movimento ondulante usual, pastas e papeis diversos apoiados na cintura, olhares se desviando da rápida apreciação – também cotidiana – com medo de levarem uma patada logo de manhã, e ela vindo na direção da minha mesa, apavorei-me.

Daiana, quero falar com você.

Reparem que ela disse meu nome, sem nenhuma interjeição grosseira como lhe era de hábito. Duvidei por um segundo que ela se dirigisse realmente à minha pessoa – pasmada, naquele instante, sem vergonha alguma de estar.

Hein? Foi minha resposta.

Você tem surdez seletiva, Daiana?. Então jogou suas pastas sobre minha já abarrotada mesa e complementou oferecendo-se para me pagar um café.

Se eu fosse homem, ao passar pelas fileiras de bancadas do setor de finanças, com todos aqueles machos babando pelo corpo sexy de Amanda, e sabendo que todos ouviram ela me convidar para um café, eu teria feito o clássico sinal vou come-la logo mais. Só que até a forma correta da escrita prova que eu não sou do sexo masculino - ainda que valesse o pensamento, já que eu devia ser a primeira pessoa à quem Amanda chamava para um café – assim como prova que eu absorvo fácil a presença de espírito dela. Meus status iria às alturas.

Vou ser direta e franca, disse-me, assim que serviu-nos um café expresso. Sei que você é conhecida por ser sincera e afável, ainda que eu ache sua delicadeza com as pessoas uma grande e desnecessária puxação de saco. Bem, pelo menos eu acabara de me certificar não estar falando com um alien. O caso, continuou ela, é que preciso saber quem reclamou de mim para o chefe, na reunião passada, e sei que você não vai mentir. Então?

Na reunião que citava, e que ela não participou por estar de atestado, algumas pessoas um pouco, eu diria, envolvidas na tentativa de linchar Amanda para fora da empresa, fizeram observações acerca daquele comportamento levemente ignorante dela. A questão é que sua eficiência subjugava esse quesito, tanto que não era a primeira vez que acusavam-na.

Mas agora ela sabia. Sabia por algum motivo que me era alheio, mas só podia ser o chefe dedurando todo mundo em troca de cinco minutos a mais de intimidade com ela.

Oh, Amanda, você sabe que não foram uma nem duas pessoas, resmunguei, não querendo que minha voz saísse do café. Pretendia que ela não saísse sequer da minha boca, que Amanda sugasse meu pensamento, e assim o risco de ser eu a próxima na lista de linchamento reduzisse consideravelmente. Engoli uma bola seca de nervosismo, temendo a deslumbrante mulher em minha frente, temendo todos os outros que, unidos, poderiam fazer a merda acontecer. O café desceu rasgando a garganta.

Quero nomes, vociferou desarrumando os cabelos. Fosse eu um homem, teria nesse instante uma evidente ereção, provocada pela imagem selvagem que ela exibia. Deuses, pensei.

Está com medo que algum dos incompetentes descubra que você os delatou? Ou também faz parte da caravana?

Não neguei, disposta a colaborar se soubesse qual seria sua atitude. Perguntei sem preâmbulos: O que pretende fazer?

Botar esses implicantes em algum lugar que combine com suas dispensáveis personalidades, respondeu sorrindo.

Vai sujar com eles?

Só um pouco, para eles aprenderem a não mexer com quem está na sua...

Nunca a vi na sua, Amanda, falei sem pensar.

O mundo é engraçado, não acha Daiane? Ela não pareceu dar-se conta da minha afirmativa anterior, para meu alívio. As pessoas me odeiam, porque falo o que penso, sem medir que posso causar mal estar aos outros, quando eu vivo constantemente desagradada de tudo ao meu redor. Ela não me olhava, encarava a parede. Não senti tristeza em suas palavras, como se agora ela fosse me contar que a mãe morrera quando ela nasceu, e seu pai a criara com ex-presidiários. Tudo é lixo, continuou ela, e a gente só vale o quanto incomoda.

Enfastiada do monólogo e temendo o segundo ato, dei os nomes, como ela queria, e de camarote assisti Amanda fazer o inferno com a vida deles, dentro do escritório.

Estranhamente aquele dia marcou o início de uma proximidade entre nós duas. Talvez eu concordasse com sua teoria, afinal. Começava a me agradar a ideia de retaliação. E ela percebia. Gostosa a desgraça alheia, não? Disse-me ela, outra manhã no café. Tanto quanto você, respondi tentativamente.

Conto por S. Mr.S

quarta-feira, junho 09, 2010

Quando a galhada alheia cansa

Por que a vida não é apenas um compêndio das vezes que você quebrou a cara – embora estas humilhações recorrentes não façam creditar o contrário – , quando você beija Sônia, parece que o mundo é outro; você é outro. Mas só por que a vida também não é um conto de contracapa de uma revista de fofoca, você devia saber que para Sônia você não é único; nem o único.

Então deixamos o lirismo do amor-imortal para o falecido Beethoven, e pintemos o impressionante e impressionista caos de sua vida, com água-forte – ou guache, o que tiver à mão – reprisando em detalhes o que você precisa lembrar sem o tempero condimentado do paixão, para entender por que os galhos não são enfeite de natal.

Primeiro: Não é natal. Em tempo, mal acabamos de passar o carnaval – calor, suor, cerveja e a complementação perfeita da galhada que jaz sobre sua cabeça.

Segundo: Embora os francos-cornos-felizes façam apologia ao modo de vida subalterno de quem aceita restos, não há nada mais humilhante – ainda mais para você, pequeno hobbit-bolseiro – que sorver restos como fossem eles o ambrosia dos deuses.

Dando já os nomes aos bois, ela se chama Sônia, codinome vaca, e não Ambrosia; comece pelos dados essenciais.

Oh, você nasceu desprovido da altura e beleza dos galãs de novela, a carteira de um deputado, a lábia dos malandros? E só por esses fatos relevantes entende a atitude libertina da mulher que ama? Já pensou se usaria a mesma desculpa para si, se fosse ela a baranga?

Terceiro: Primos não entram na partilha de bens de família alguma. Tampouco da sua, já que você nem morreu. Para constar, até onde se sabe, você não é esquimó, aqui não faz frio polar, e seu primo não teve que pedir duas vezes para levar sua mulher para o bosque. Esqueça os contos infantis, ele não é o lobo mau, nem Sônia a chapeuzinho. Chapéu quem usa é você, e ele não é vermelho.

Guarnecido dessa compreensão básica da realidade, siga o passo seguinte: regurgite seu otimismo. Ele é sua droga ilusória, que impede que você veja claramente o que está diante de si; quando a pegam pelo traseiro, não é excesso de carinho, quando a beijam no cantinho dos lábios, não é intimidade positiva. Eles não vão contar as ovelhinhas pulando a cerca, no meio da noite, quando ela sai sorrateira e volta quase amanhecendo. Você sequer mora numa fazenda, apesar dos bovinos que cria em casa.

É mister que se faça aqui, ainda, um pequeno revival acerca de sua graciosa relação, em pontos:

- Ela nunca lhe disse que o ama, ainda que como resposta as vezes seguidas que você o faz;

- Ela nunca ficou em casa nos fins de semana, nem atende o telefone depois de oitenta ligações suas;

- Quando você quebrou a perna, ela tirou férias;

- Sempre que sua mãe lhe visita, ela usa o mesmo vestido florido, fechado na gola;

- Em compensação, o resto do tempo, os vestidos que ela usam parecem feitos, em tamanho e comprimento, para crianças de doze anos;

- Ela detestava seus livros, e os culpava por sua distância;

- Mesmo quando você parou de ler, ela continuou os culpando;

- Depois de doar todos os seus livros, e sua leitura se resumir as revistas de fofocas de 1,99, ela continuou culpado seus livros, pois nunca passou tempo suficiente em sua casa, para perceber que eles não mais estavam lá;

- E a melhor de todas: ela sempre confunde seu aniversário com o do Pedrão.

Sabe-se lá porque.

Acreditamos em sua bondade, sua positividade, e principalmente em sua suprema boa-vontade. Mas até para nós, seus amigos, tão amigos que nunca pegamos Sônia - ignorando altivamente nossos paus diante do oferecimento dela - e que sequer usamos o chapéu, a galhada pesa e cansa. A sua.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Para ser agradável é preciso...

1)Ter o mínimo conhecimento de sua própria língua. No caso, português. Não há probrema nenhum no mundo, nem mim faz porra alguma, nem a letra “d” entrou no cardápio da quentinha; não 'tá fazenu nem comenu, tão pouco chovenu. E drento é um lugar que não existe.
Não é preciso preciosismo, como passar a conjecturar sobre improbabilidades verbais empregadas no cotidiano. Se você tem vocabulário, não importa que, tipo assim, véi, gírias apareçam em diálogos despreocupados como:

- Mermão, vamos pra balada!
- Já é!
- Oho!
- Fumo!
- Onde? Quedê o bagulho?


Mas usar expressões como essas – supondo – numa entrevista de emprego, uma conversa entre desconhecidos, e PRINCIPALMENTE, numa entrevista esportiva onde você falará sobre SEU trabalho, é um tanto... desnecessário comentar.

- O time vem trabalhanu forte, graça a deus, o técnico 'tá botanu na gente pesado, peganu firme, e a gente nós estamos botanu o pensamento positivo adiante, graça a deus, com passes planejados para mim estar na boca do gol, e botar pra drento.

Ler resolve. Veja menos TV e seja mais sociável!
O que nos pede citar o segundo item...



2)Falar coerente e declaradamente. As poucas pessoas de seu círculo social que compreendem seus grunhidos, não estarão sempre perto para traduzi-los simultaneamente:

- Óia us breguet! Mó forca, fudeu, lombadão norótico!
- O que ele disse?
- Você atropelou um cara.


Não é divertido, nem interessante, quiça agradável, você perder mais tempo em uma conversa tentando entender o que o indivíduo está falando, que propriamente dialogando com ele. O mesmo vale para tentativas de expor suas ideias – contrárias ou não – na internet. Fica a ressalva: não importa a convicção que você tenha de sua opinião, se ela é compartilhada de forma ilegível, com erros absurdos de gramática, e faça mais sentido embaralhada que como foi escrita, ela será motivo de chacota, ridicularizada, e não terá qualquer credibilidade.

- Pos ELE dis oau seus meu Filho, entaum morreu po cousa fiz mal, nansi no pecadu e minha redoensão ficaran sempre, sete veis, cete pragua egipisia, só ELE salva na morti e nas vidas q segi, blasfameredores cairram pra baxo, na morasdia demoica

Pense: opiniões mal ditas podem converter uma pessoa... Ao ateísmo.



3)Ouvir o que seu interlocutor estiver falando. Essa é a máxima da cartilha “ser agradável”. Interações sociais competem trocas e não auto-promoção desenfreada, a enervante espera que a fala do outro te permita falar de você:

- E começou a chover...
- Ah, que incrível! Lá em Pato Branco sempre chove!
- ...


Para entender o contexto de uma conversa, também é indispensável ser um bom e atento ouvinte. Além de demonstrar apreciação por quem e do que se fala, ajuda a formular melhor seus próprios argumentos – sejam estes a favor ou contra – tornando-o também digno de apreciação. São boas conversas que tendem atrair para si pessoas inteligentes e de boa índole, e não pés-de-coelho no zíper da carteira:

- Ganhei de minha falecida tia-avó...
- Oh, e ela faleceu em que circunstância?
- Parada gritando por ajuda para atravessar a rua
.



Obviamente existem outras ações que o tornarão mais agradável no cotidiano, tais como:

a) Não jogar lixo na rua, ou grosseiramente arremessá-lo da janela do carro, arriscando acertar em cheio pedestres, ciclistas, ou o tio que vende refrigerante no engarrafamento - todos sabemos os problemas causados pelo acumulo de lixo, o que torna “fazer show de sua própria estupidez” um dos itens primeiros na lista de ações desagradáveis;

b) Agir com deferência para com pessoas que tenham dificuldades especiais - motoras, mentais, intelectuais - assim como idosos, crianças desacompanhadas, ou com qualquer ser humano que também lhe seja educado;

c) Saber colocar sua opinião, e não esquivar-se com a velha desculpa “sobre religião não se discute, assim como sobre futebol”. Discutir é parte do contexto social, e faz parte do crescimento intelectual. É preciso entender sobre falibilidade das opiniões, e da necessidade de serem testadas. Argumentação, troca de informações, orquestram discussões desde tempos imemoriais, a máxima ideia da inexistência de uma verdade absoluta. Estar aberto a apreender informações, e espalhar as já apreendidas – sem o uso da lança ou da espada para impor seu ideal, como nossos ancestrais faziam - caracteriza evolução. Nada mais agradável que se permitir evolver.


Obs:. Esse texto foi escrito por Jac Vela-Negra e compreende suas opiniões. Foi escrito nos moldes BLOG DE HUMOR - só para testar a possibilidade (faltando apenas as imagens e a hilaridade da coisa). Jac detestou fazê-lo. O PDP volta, em breve, em seu formato convencionado em forma de nada.