Quanto mais se fica sozinho, mais se deixa de fazer sentido.
É que nessa coisa de cotidiano não se encaixa as paranoias que cria a mente quando ociosa. Não cabe a sabedoria adquirida no silêncio estagnado de quem espera, não sabe o que, mas espera, nem tem espaço para a suposta loucura que se arranja quando se escuta apenas o som da própria voz.
Quase magia, não fosse inferno.
Olha-se com a paciência do observador meticuloso, experimentando combinações inusitadas de seres e suas complexidades, exaurindo conceitos que mal entende, para ser incapaz de responder questões básicas como oqueachadessaroupa? Ambígua, irregular, amorfa. Um único poste no meio de uma estrada deserta sem sinal de celular, e seu único deus é o personagem fictício de um livro de seu autor favorito.
Para outros, uma completa falta de remendo. Para você, não.
Quanto mais se está sozinho, mais você parece senhor de um reino que imagina. E os súditos nunca tem razão.
Nossos milhões de leitores (sic) devem estar agastados devido nossa longa ausência. Para aplacar a dor de seus coraçõezinhos, resolvemos, Mr. S e eu, montar uma pequena lista dos 10 melhores clipes com Drag Queens, na nossa humilde opinião. Ou os 10 clipes com Drag, da atualidade, que a gente consegue se lembrar. Enjoy!
10| Jealous of my boogie – RuPaul |
Rupaul’s Drag Race é um reality show considerado o America’s Next Top Model das Drag Queens. Ah tah. Mas isso ajuda a entender o contexto. A musica acima nada mais é que o tema do programa, no cenário do programa, usando das três finalistas da segunda temporada do programa, e os figurinos do programa, e os gatos sarados de boxer do programa.
Supostamente é cantada pelo próprio Rupaul, que já é Drag das antigas, desde o tempo que Patrick Swayze ainda era vivo, arrancava suspiros, e conseguia andar num salto 15 (não nessa ordem).
9| Driving you slow – The Gift |
A banda portuguesa The Gift, entra em nosso ranking com essa música de 2004, do CD duplo AM-FM, e na parte FM da coisa. Merecem destaque dois integrantes (Nuno Gonçalves e Sônia Tavares), que fazem parte do projeto Amália Hoje, que consiste em regravações de Amália Rodrigues. Pra quem não conhece, acesse o Wikipédia. Looser.
8| Pass this on – The Knife |
The Knife é um duo sueco formando pelos irmãos Karin e Olof Dreijer. São sensacionais em suas composições e totalmente avessos a cena pop-comercial, chegando a boicotar prêmios dos quais foram agraciados (com mulheres vestidas de macaco. O que ganhou meu respeito). Os dois se embrenham tentativamente até na ópera, e a voz de Karin pode ser ouvida no seu projeto solo Fever Ray. Ela é foda.
Repare no clipe o olhar de “morra, viada” supersônico dela…
7| Sing me spanish techno – New Pornographers |
O The New Pornographers é um grupo formado em Vancouver, Canadá, cheio de integrantes que são cheios de projetos paralelos. A música acima faz parte de seu segundo CD Electric Version, mas já digo que acho Twin Cinema melhor. Prontofalei.
No clipe, uma surpresinha para as Dragamigas.
6| Crazy in love – Antony and the Johnsons |
Antony, para os íntimos, líder da banda estadunidense que leva seu nome, tem uma voz peculiar que não engana ninguém: ele é, sim, uma Drag Queen Size. Basta dizer que, para que essa música entrasse em nossa lista, bastou ela ser um cover da Beyoncé cantada por ele. Ponto. Nem precisava a Pink Lady no clipe.
5| Baile de peruas - Noporn |
Formado pela dupla Luca Lauri e Liana Padilha, o Noporn lançou em 2005 seu primeiro álbum. Nós não temos grandes informações sobre Noporn além de janelas, janelas, janelas, o que já dá pano para a cortina.
4| Filthy Gorgeous – Scissors Sisters |
Começa com aquela The Face monstro da Ana Matronic – a Drag que deu certo, nasceu montada – então você nem precisa mais se perguntar porque está na lista.
Quem não conhece as “Irmãs Tessouras”, que se morra no banhado.
3| A Drag a gozar - Kiko Cesar |
Tributo à “A velha a fiar”, que você já pode ter cantado na infância, ganha aqui uma conotação mais modernosa e imprópria para menores. Metade da população nem entende as gírias. A metade que entende ‘tá rindo até agora.
Esse clipe, vencedor do show do gongo de 2007, ganhou nossa terceira colocação por prezar a mais convidativa das faces de uma Drag: o bom humor.
2| O rock da linguísta antropológica – Zuleika e os confirmados |
Banda de pop-rock com vocalista Drag? No Brasil? Musica original, nada de covers ou dublagens?
‘Tá aí. Ganhou nosso segundo lugar!
1| In the end – Justin Bond and the Hungry Marching Band |
É um clipe feito do filme pra qual a musica foi feita. Short Bus (2006). John Cameron Mitchell e sua facilidade de desossar um frango na nossa frente, e mesmo que a gente esteja morrendo de fome, nos fazer chorar por seu finito destino. Eu possivelmente comeria ele (o John, não o frango). Por não menos que isso, In the end fica em nossa primeira colocação.
Que acharam de nosso top 10? Concordam? Discordam? Ah, calem a boca.
Jac acha que essa gente se pronuncia demais nesse blog. Affe.
No paraíso terrestre figura a imbecilidade de um criador, ou – pensei nele agora como um gênio presunçoso – sua divina ironia? Um caos literário, descrito como a criação da humanidade – e me permita parabenizar o autor por conseguir pairar entre o nada e coisa nenhuma, quase uma improbabilidade metafísica (pois não vamos, aqui, excluir nem mesmo um espirito santo, não importa quão inexistente ele seja) – lá naquele livro de narrativas ambíguas chamado bíblia, por onde passei, certo dia, quando escolher entre ler Paulo Coelho e ir a catequese, não estava ao meu alcance.
Li O Alquimista, mais tarde, e o achei tão detentor de sabedoria, quanto aquela passagem do gênesis, que dizia que um senhor (que chamaremos a partir daqui de qualquer nome, menos de deus, para não confundir o leitor incauto, que pode pensar que estamos falando de Zeus, Alá, Thor, ou do cara de rastafári), resolveu, num dia ocioso, criar o homem. O homem. A mulher, pobre coadjuvante, aquela que até hoje sofre uma vida de cólicas e perturbações menstruais, apenas para dado momento ser praticamente rasgada ao meio para trazer-nos ao mundo, nasceu – não se assuste com a criatividade de quem compôs o texto – de uma costela do tal homem imagem-e-semelhança do escultor.
Além desse trecho, e de outros menos relevantes, dos quais não consegui escapar da leitura em voz alta – para a turma de catequizandos da irmã-de-alguém (não minha, decerto) Marisa – nem fingindo amigdalite, não tive a infeliz chance de ler totalmente a bíblia. Falta de tempo, e de cafeína para aplicação direto na veia. Se Paulo Coelho, Mr. Bestseller, fez-me roncar como um porco fastiado da lama, 'magina ela, a rainha das histórias mal contadas!
Mas o que me fez retomar o mais famoso conto criacionista, onde nosso planeta foi, no inicio, um paraíso indolor feito para Adão – o cara com uma costela a menos – e Eva – a coadjuvante – viverem sem pecado – lê-se, sem sexo – sem maldade e esquizofrênicos – ué, eles falavam com animais, não?! Então! - esperando por porcaria alguma e sendo nada mais peças do lindo zoo do criador, foi o despreparo do autor para arregimentar bons personagens numa boa história.
Cheguei a parte que me desconforta: o pecado era descrito como o mal. O mal que tudo vê, e de tudo sabe, e não é o olho de Sauron. Comer da maçã - e a maçã como analogia da fome de conhecimento, ou do mal, porque saber é feio, e vai matar você – seria permitir instalar dentro deles, o que havia de mais pernicioso em seus corpos; o desejo do homem pôr seu pênis na vagina da mulher, e esfregar até o esperma correr para encontrar o óvulo e fecundá-lo, e, bem, os dois gostarem disso.
Momento reflita você mesmo: Se o composer desejava (do fundo de seu coração divino), que suas criações não fizessem “merda” em seu paraíso, porque diabos deu-lhes o mecanismo para? E se o homem foi feito a imagem do escultor, isso significa que, aquele que pôs o homem no paraíso também tem o play, e SABE O QUE FAZER COM ELE, porque, lembremos, foi o próprio composer que criou a cobra - que estava lá de bobeira na macieira – que incentivou a única pessoa que, por mais coadjuvante que fosse nesse conto do Vigário, digo, da criação, foi quem fez a humanidade acontecer. Fala sério, sem ela não teríamos Paulo Coelho. Bem, isso não é realmente algo a se agradecer (óquei, ele não é o pior autor que já li, mas pelo menos é gente boa o suficiente para não me processar. Ponto pra ele).
Para desmistificar a lenda, existe a teoria evolucionista de Darwin, muito menos absurda e épica, mais realista. Ainda assim, para quem gosta do mito criacionista, quem, assim como eu, adora uma história de personagens esquizofrênicos e sexualmente travados, que se libertam das amarras de um pai sádico, e tomam suas vidas para si, ou talvez o possível conto sobre um criador para lá de insano, que fica do alto vendo a ingenuidade dos seres, esperando, ansioso, pelo próximo capitulo. Sim, ele pensa, uma hora a Eva vai sacar as coisas. Bem por isso dei o equipamento fundamental à ela. Pena que no gênesis, o autor não teve essa fabulosa ideia; do escultor criar a loucura antes de tudo, e preencher os espaços vazios com humanos; “e no inicio, era tudo novela mexicana”.
Quando minha tia, que tem estrabismo, disse que nessa posição, virada de lado, encostada no poste com dedo na boca, peito pra fora, barriga junto, à frente de um muro pinchado com os dizeres: “amarelão em negro azul deixa o cara verde” e posta nesse vestidinho roxo, costas de fora, com uma legging cereja meia canela, e um sapato anabela de palha trançada, eu ia ficar gostosa pacaralho, juro que achei que ela 'tava me zoando. Mas eu 'tava enganada, veja só!
Quase toda a minha vida é privada. Sempre tem merda boiando, cheiro de gases, um papel enrolado que não desce. Quando eu resolvo dar a descarga, vejo tudo rodar e rodar antes de correr pelo ralo. Eu penso feliz mandei a merda embora, para daqui a pouco vê-la dando um tchauzinho lá do fundo. Isso é pensando no número dois, porque ainda tem o um. É um fato tão absurdo que minha vida é totalmente privada, que de manhã quando acordo para trabalhar eu miro, miro, mas a privada sempre sai do lugar. Nunca acerto uma mijada que seja nessa minha existência de bacio. A solução seria agachar, mas você sabe: agachar pode ser gostoso, mas acaba sempre dando em merda. E merda na privada alheia já é sanitário público.
Olho da janela a chuva caindo fina, lenta, gelada e... caio da janela descomposta em jazz. Descompassada, rasgando a voz. Eu só posso gritar.
Aturdindo a plateia, meneio a cabeça, um sorriso triste, rasgado, gelado e... aplaudo a queda e a adrenalina. Meneio a cabeça descomposta em jazz.
A lua, velha amiga azulada da noite passada, canto um último verso em sua graça. Estralando os dedos, caindo com a chuva, meneando a cabeça louca, louca, vertiginosamente descomposta em jazz.
É um adeus. Sempre é adeus. Todos os dias, um pouco mais, aqui, lá, na brevidade dessa vida, no compasso marcado do coração, no ritmo atroz, no som veloz, que corta, retalha, espicha e frangalha o corpo. O corpo que queda com a chuva. Fina, lenta e gelada... marcada e descomposta em jazz.