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sexta-feira, março 09, 2012

Às vezes

Às vezes se é bom, mas não suficiente.

Às vezes se é bom e suficiente, mas não interessante.

Às vezes se é bom, suficiente e interessante, mas não diferente.

Às vezes se é tudo que se espera, mas queriam surpresa

Às vezes se é a surpresa, mas - ironia do destino - precisavam especificamente de algo.

Às vezes se é vago e acham sentido.

Às vezes o sentido é claro e lhe acham vago.

Às vezes se é intenso intencionalmente e isso soa falso.

Às vezes se é intenso espontaneamente e isso soa exagero.

Às vezes se é o melhor e não basta.

Às vezes se é o pior e já basta!

Às vezes o moderno é estranho. Às vezes é banal. Às vezes é coisa do passado.

Às vezes, mas só às vezes, você pensa que já tentou ser tudo e nada deu certo.

Parabéns. Você é humano. E está vivo.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Encanto

No canto onde cantar encanta só o jarro, no canto estranho onde nem cantar espanta, um pensamento se forma e toma conta, a verdade que invento me toma. Quando vejo estou embebida de dor e tormento, o canto rachado eu nele. Esfrego a cara e o choro aumenta, espero passar a tarde e a noite entra, abrindo a cortina com vento, derrubando o jarro de água, ela e minhas lágrimas empapando o chão. E será que ainda aguento? Enfrentar sem medo minha mente tonta, que quer sofrer e faz de conta que tudo a minha volta me encontra pra me botar arrastada, suja e descalça na estrada, cheia de horror e confusão. Logo de volta ao canto de onde vim, onde ao cantar assim, com a voz rachada, sangrando, eu via o vazio maciço tomar meu pranto, e arrancar meu chão. Vou levar do canto o canto, o que canto pra cessar o momento, o pensamento, o encanto que já fiz cessar. Nada sobra, além de cacos, e um asfalto que me aguarda e escolhi para adornar a tristeza paga que acabei de quitar.

quarta-feira, junho 16, 2010

A escorrer

O seu olhar cansado de olhar, fecha os olhos

Na espera de que o dia termine, por hora

Um bocejo, um aceno e a vontade de sumir

Outro dia, mais um dia, ele está aqui

No seu rosto, enfastiado, a marca de quem chora

Um rito de passagem de quem vai embora

Seu sorriso de tão falso se partiu no meio

Tornou-se esgar, a impaciência de quem deseja ir cedo

E o bilhete de passagem só te leva a sua casa

Um lugar tão sufocante que nem pode se mover

Eu conheço você daquela tarde

Que o almoço findou em som vermelho

Aquele som que empresta ao sonho um pesadelo e solidão

E toda a mão que lhe ergueu pela mão já o tinha posto ao chão

O bilhete de passagem não parava o tempo

Nem podia erguer

No silêncio que se segue reconheço os seus olhos

Me reconheço em você

Aquele horror que empresta a dor a força pra não se mover

E toda dor que cortou seu ser, sangrou a calçada inteira

A tarde inteira a escorrer

A vida inteira a escorrer

Já o tinha posto ao chão

Musica por S. Mr.S

quarta-feira, maio 26, 2010

Enchente

Enquanto gritava entre dentes

Resguardando a desforra

Lutava passo por passo o continuar de sua história

Era frio, ou era quente, era o fim claro sem rumo

Chovia pedras sangrando que rasgavam o solo infecundo

No limiar da tormenta, uma voz inumana esbravejava

No rotundo céu negro, a resposta trovejava

Tão complexo o ar não cabia entrar traquéia adentro

Os braços a bater sem compasso, choramingava em silêncio

Forcejando os calcanhares a encontrar qualquer porto

Deixou a esperança naufragar sem qualquer esforço

 

Aquele homem gritava para si, entre dentes

Amaldiçoando Deuses inexistentes

Cascas vazias que sabia, agora

Não teria céu, outra vida, para a desforra.

sexta-feira, março 26, 2010

Culpa (o dedo)

o dedo caiu de tenso

tinha apostado na irmandade entre os seres
tinha simpatizado até com dissabores
feito-se de aviso contente
precedendo sortilégios e mentiras
por hora deitado
noutra acompanhado de meio-sorriso

um dia contornou um lábio, o dela
fornicou a aréola
fez enrijecer a extremidade do peito
e soube onde o coração batia
lembrou-se de todos os dias que dissera
- acerte-os
contra a parede que não caíra
do peito cheio que bloqueava o fuzil mirado
esperando ele por-se em riste

desprendeu-se, então, da mão, que ainda existe

Purificação

Verter sua cor pelas narinas
Tudo rasga, infame
Rasga e sangue!
Tão frágil que só lamento
A armadura de carne
Cheia de pecado dentro
Amado se prostitui
Amando se prostitui
Nunca a troca equivale
Ao peso do presunto
Verte um desejo que abomina
Cada orgão interno
Parte da escultura
Corrompida
Assim na vida
Como em vida
Como a saliva escorre
De um céu à outro
Silêncio espirito-de-porco
Todo vermelho que verter é pouco
Nem o sacrifício realiza
Limpa a sujeira, torto
Ficando mais sujo ainda

terça-feira, setembro 29, 2009

Poesia Bruta

O toldo geme quando o vento o açoita
Na casa a madeira se reclina abrupta
Enverga as tábuas, treme os seres e
Remói seu lixo na poesia bruta
A água escorre no limiar, parede
Trepida tanto, como esta puta
Que gritando tenta abafar seus
Raios, tempestade, de poesia bruta
E quando o tijolo desiste então vai
Deslizar com a terra insustentável, pergunta
Se irá morrer, já morreu, pois se respira
Afoga-se sob o manto fresco da poesia bruta
Alguém cale sua boca, a chuva chegou primeiro
Se ela gritar bem alto, engolirá seu folêgo e astuta
Perceberá que o ar é tijolo, madeira e cimento que
Misturado à terra, ao sangue, é poesia bruta

sábado, setembro 19, 2009

qualquer coisa antes de dormir

adorei todas as migalhas da tigela e se eu não tivesse varada de sono já bolava um leite pra despejar aí
meus dedos doem até do avesso sonhos fazem peso na cabeça doída e dormir é pior, porque amanhã se acorda
cacete
a porra se esvai da mente antes que dê tempo de escrevê-la
algo dessa espera, ou esperma, nascerá?

terça-feira, agosto 11, 2009

Balada da primeira noite

Balinhas que me deram para enxergar o mundo em cores programadas
Todos os contrastes que ferem os olhos irradiam nos meus, sem me ferir
Eu viajo entre esses tons vivos, eletrizantes, que coroam minhas emoções exultantes
Se eu te beijo agora, sinto o gosto das frutas que comeu numa vida passada
Se te enfio os dedos no rabo, sinto como se descobrisse um caminho de algodões perfumados de cores psicodélicas
Eu te abro para mim, e não consigo parar
Nem mesmo quando o laranja fosforescente se tinge de rouge


Para um amigo que estava ali do lado, do lado de lá.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Aquém

Era avesso
tanto lúgubre
desencaixado
Vagava em si de si.
Arremessado às ruelas
pousado e mal quisto,
predispôs-se rotundo
sorvendo mundos de calorias
Tomou aspirina.
Insone, vagou em si de si
desencaixado
e virtual.
Não virtuoso.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Não me importa

Não me importa criar um gênio em mim
expor conceitos travados, esperando os lados
os à favor, os contra
os que não entenderam
e aqueles que ainda pensam na virtuose da elaboração
enrodilhada no advento do contemporâneo e frágil
perceber individualista ao que mundo é dado
Todas as bundas tem rabo
Todas expelem fezes por ele
Fato quase 100% inegável que
quase explica para os existencialistas
tudo que eles precisam saber
Não me importa ser reles peão no tabuleiro
Nem sei jogar xadrez
Outros me jogam lixo, dão-me vícios
eu me deixo envolver
Não importa o novo, estou sem grana
Não importa na sua cama ou na minha
Não importa ser nessa encruzilhada vazia
nossa busca não é pelo romance amargo
e que paga imposto
mas pelo gosto acre e o grosso,
gritar sem ouvir o som sair
Não me importa se isto é poesia
ou só verborragia trágica
daquele a quem não basta ser desimportante
Em diante digo, já que é de praxe
Não me importa se o que nasce
Vai morrer um dia